Antes de mais, importa afirmar algo essencial: não existem, até ao momento, provas de que esta alteração tenha sido motivada pela presença de comunidades muçulmanas ou por qualquer outra comunidade religiosa naquela zona da cidade. Numa sociedade democrática, as opiniões devem assentar em factos e não em suspeitas. Contudo, a falta de explicações claras por parte das entidades responsáveis acaba inevitavelmente por alimentar dúvidas que poderiam ser evitadas através da transparência.
A Procissão do Corpo de Deus não é apenas uma cerimónia religiosa. É uma tradição secular que faz parte da história de Lisboa e de Portugal. Durante séculos, manifestações desta natureza ajudaram a moldar a identidade cultural do país e continuam a integrar o património histórico e imaterial da nação.
Portugal é um Estado laico. A Constituição garante a liberdade religiosa e estabelece a separação entre o Estado e as confissões religiosas. Mas a laicidade não significa apagamento da história nem negação das raízes culturais de um povo. Um Estado laico não é um Estado sem memória.
Os dados oficiais dos Censos de 2021 mostram que cerca de 80% dos portugueses continuam a identificar-se como católicos. Independentemente do grau de prática religiosa de cada pessoa, este número demonstra que a tradição católica continua a ser um dos elementos centrais da identidade histórica, cultural e social portuguesa.
Portugal não tem religião oficial, mas também não deve ter amnésia histórica. É um facto incontornável que a cultura, a arte, o património, os feriados, as tradições e grande parte da identidade nacional foram profundamente influenciados pelo cristianismo e pela tradição católica. Reconhecer esta realidade não implica excluir ninguém; significa apenas reconhecer a história tal como ela é.
Reconhecer esta herança não diminui a liberdade de quem professa outras religiões nem o direito de quem não segue qualquer fé. Pelo contrário, uma sociedade verdadeiramente plural é aquela que consegue respeitar todas as convicções sem exigir que nenhuma delas renuncie à sua identidade.
É precisamente por isso que a alteração do percurso suscita interrogações legítimas. O Martim Moniz tornou-se, nos últimos anos, um dos maiores símbolos das transformações sociais, culturais e demográficas de Lisboa. É um espaço marcado pela diversidade, pela presença de diferentes comunidades e pela convivência de várias culturas.
Mas se Lisboa se orgulha de ser uma cidade multicultural, então não deveria existir qualquer incompatibilidade entre essa diversidade e a passagem de uma procissão católica pelas suas ruas. Pelo contrário. Uma sociedade plural demonstra a sua maturidade quando permite que diferentes expressões culturais, religiosas e identitárias coexistam naturalmente no mesmo espaço público.
A integração não se faz através da invisibilidade. Faz-se através do respeito mútuo. Os católicos devem respeitar os muçulmanos, os hindus, os evangélicos, os judeus, os ateus e todos os restantes cidadãos. Da mesma forma, todas as comunidades devem respeitar as tradições históricas do país onde vivem. O respeito não exige renúncia à identidade; exige apenas reconhecimento recíproco.
Por isso, a questão principal não é saber se alguém poderia sentir-se ofendido pela procissão. A verdadeira questão é saber quais foram os critérios que justificaram a alteração do percurso e porque motivo uma tradição com séculos de história deixou de passar precisamente por uma das zonas mais emblemáticas da Lisboa contemporânea.
Se existiram razões logísticas, de segurança, de mobilidade ou de organização, os cidadãos têm o direito de as conhecer. A transparência fortalece a confiança. O silêncio alimenta especulações. E quando estão em causa tradições com profundo significado histórico e cultural, as explicações tornam-se ainda mais importantes.
Uma Lisboa aberta ao mundo não precisa de esconder as suas raízes para acolher a diversidade. Uma cidade segura da sua identidade é capaz de preservar as suas tradições históricas enquanto respeita todas as comunidades que nela vivem.
Numa democracia madura, diversidade e identidade não são valores incompatíveis. Pelo contrário. Uma sociedade forte é aquela que consegue afirmar ambas sem medo, sem complexos e sem necessidade de apagar partes da sua própria história.
A diversidade enriquece uma sociedade. Mas uma sociedade que esquece as suas raízes corre o risco de perder aquilo que a tornou digna de ser partilhada.

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