Foi há 105 anos que no dia 1 de
Fevereiro de 1908, teve lugar o assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe D.
Luís Filipe. Este acto bárbaro, baptismo de sangue da República que em nada
deve orgulhar os portugueses, precipitou o fim da monarquia constitucional no
nosso país e anulou uma última tentativa séria de reformas em Portugal, impondo
um regime que era apenas pretendido por uma minoria e que nunca foi
referendado, resultando unicamente de um golpe de Estado que, pelas armas,
substituiu um regime por outro e que trouxe uma nova escalada de violência na
vida pública do País.
Em 1908 vigorava a Carta
Constitucional e, para além de liberdade individual e colectiva, existia
liberdade de associação e de expressão. A comunicação social de 1908, à
semelhança do que acontece nossos dias, era hábil em crucificar pessoas na
praça pública e sem culpa formada. A propaganda republicana não descansou
enquanto não denegriu a imagem do Rei, contando para o efeito com a colaboração
de alguns que se declaravam monárquicos e estavam melindrados com o monarca.
Os republicanos temiam as
reformas em curso e sobretudo Dom Carlos, astuto diplomata e estadista de
excelência. El-Rei era patriota e defensor da liberdade, tendo-se destacado nas
artes como um pintor de grande qualidade e sensibilidade extrema e um cientista
oceanográfico de reconhecidos méritos que ultrapassou fronteiras.
A 1 de Fevereiro de 1908, após
uma estadia em Vila Viçosa, D. Carlos e o Príncipe D. Luís Filipe, regressam a
Lisboa e, apesar do clima de enorme tensão que se vivia na capital, D. Carlos
preferiu seguir numa carruagem aberta, praticamente sem escolta, apenas com os
batedores protocolares e um oficial a cavalo, ao lado da carruagem do rei, que
trajava o uniforme de Generalíssimo, pretendendo com esta atitude, mostrar ao
povo alguma normalidade.
No trajecto el-Rei e D. Luís
Filipe são bárbara e covardemente abatidos pelos assassinos a soldo da
república (que ainda recentemente alguém os pretendia considerar heróis), o
braço armado da Maçonaria – a Carbonária.
Não podemos, contudo, esquecer
que existiram outros implicados na trama assassina os quais, pelo menos da
fama, não se livram: são eles Alberto Costa, Virgílio de Sá, Domingos
Fernandes, Aquilino Ribeiro e, quanto a este último está sepultado desde o dia
19 de Setembro de 2007 no panteão nacional (pasme-se...).
De igual modo não pode cair no
olvido a tenebrosa personagem que foi José Maria Alpoim, que dizia que em
Portugal só existiam duas pessoas com conhecimento total do que se passou no
Regicídio, sendo ele uma delas, pois sabia em que casa teve lugar a reunião
preparatória e onde se efectuou a troca ao Buíça do revólver pela carabina.
Pelos relatos históricos sabemos
que a Rainha D. Amélia, de pé na carruagem fustigou com um ramo de flores que
trazia na mão, um dos regicidas, gritando ao mesmo tempo “Infames! Infames!”.
Aliás esta imagem correu mundo nos jornais da época.
No Arsenal, para onde foram levados os corpos, a Rainha D. Maria Pia, mãe de D. Carlos disse devastada a D. Amélia: “Mataram-me o meu filho” ao que D. Amélia respondeu: “E o meu também.”
A extrema violência deste acto
deixa a Europa revoltada, não só pelo facto de D. Carlos ser uma figura
estimada pelos restantes Chefes de Estado europeus, mas também pelo facto de se
ter tratado de um acto orquestrado por uma associação secreta e assassina “a
carbonária”.
A imprensa internacional publicou
imagens do atentado, com base em narrações que iam chegando. Em Inglaterra
escrevia-se “Lisbon’s shame!”.
O Juiz Alves Ferreira iniciou e
presidiu ao 1.º inquérito ao regicídio, seguindo-se-lhe José da Silva Monteiro
e o Dr. Almeida de Azevedo que, após dois anos de investigação, concluiu ter
sido o atendado cometido por membros da Carbonária, que pretendia assim
derrubar a Monarquia. O Julgamento estava marcado para o dia 25 de Outubro de
1910, mas acabou por não acontecer em virtude da implantação da república dias
antes, pelo que não houve qualquer tipo de condenação para os implicados
sobrevivos.
O processo acabou por ir parar às
mãos de Afonso Costa, na altura ministro da Justiça do Governo Provisório, após
o que se lhe perdeu o rasto. Também D. Manuel II era detentor de uma cópia, que
providencialmente desapareceu pouco antes da sua morte em 1932, na sequência de
um roubo à sua residência em Inglaterra.
Este hediondo acto removeu da
cena política portuguesa um grande estadista que se encontrava em posição de
estimular e o refundar o regime, e com ele o seu auspicioso sucessor, Dom Luís
Filipe, pessoa muito culta, e muitíssimo bem preparada para assumir os destinos
do País.
Através de eleições nunca a
república seria implantada em Portugal, pelo menos nessa altura. Basta vermos
os resultados eleitorais obtidos pelo Partido Republicano nas eleições do dia 5
de Abril de 1908, que num total de 157 deputados, conseguiu apenas eleger 7
deputados.
Assim, só eliminando o Rei é que os republicanos conseguiriam implantar a república mas como com a perpetração deste acto não conseguiram os seus intentos, de novo surgem com as suas intenções de derrubar o regime pela força – o que acabam por conseguir, em 1910.
O regicídio permitiu a
implantação da república.
E à 1ª república, violenta e
sanguinária, sobreveio a 2ª república, da ditadura salazarista e do Estado
Novo. E à 2ª república sucedeu a actual 3ª república, falida e corrupta.
Em 1 de Fevereiro de 1908
assassinaram o Rei e o príncipe herdeiro.
Em 5 de Outubro de 1910 mataram Portugal. Desde então o nosso País deixou de ser Portugal e transformou-se na República Portuguesa (é assim que nos identificamos nos documentos oficiais e nas relações com os outros países).




