quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Sobre o tempo político, o ruído mediático e a fragilidade do sistema, por José Aníbal Marinho Gomes

Antes de mais, importa afirmá-lo sem ambiguidades: sou absolutamente contra qualquer forma de assédio no local de trabalho, seja ele de natureza sexual ou de outra ordem. Sempre que tais comportamentos sejam devidamente apurados e provados, devem ser condenados com firmeza, independentemente de cargos, percursos políticos ou simpatias pessoais. Este princípio não admite excepções nem relativizações.

Feita esta afirmação essencial, é igualmente legítimo — no plano da análise política e mediática — olhar para o contexto em que determinados factos se tornam públicos, sem que isso implique negar, desvalorizar ou pôr em causa a seriedade de uma denúncia. A reflexão sobre o tempo, o enquadramento e os efeitos políticos de um acontecimento não equivale a acusar pessoas, instituições ou governos de qualquer acto concreto.

É nesse plano que causa natural estranheza que uma acusação com esta gravidade, tornada pública por Inês Bichão, antiga assessora da Iniciativa Liberal e actualmente a exercer funções no gabinete de Emídio Sousa, surja na imprensa a escassos quatro dias do encerramento de uma campanha eleitoral, tendo como visado João Cotrim de Figueiredo.

Acresce que, de acordo com referências públicas entretanto conhecidas, a denúncia em causa terá surgido inicialmente nas redes sociais, tendo sido posteriormente removida pela própria autora. Do mesmo modo, tem sido noticiado que Inês Bichão exerce actualmente funções no gabinete do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa. Estes elementos, amplamente acessíveis no espaço público, são aqui mencionados não como factos sujeitos a qualquer interpretação conclusiva, mas apenas como dados de enquadramento que têm circulado na esfera mediática. A sua referência não comporta juízos de valor, inferências de intenção ou leituras ocultas, limitando-se a assinalar o ambiente informativo em que o caso foi sendo percepcionado.

No actual ecossistema mediático, marcado pela aceleração permanente da informação, pela concorrência entre plataformas e pela lógica do impacto imediato, a temporalidade dos acontecimentos torna-se quase tão relevante quanto o seu conteúdo. A pressão para publicar, comentar e amplificar sobrepõe-se muitas vezes à serenidade necessária à compreensão dos factos. Este ambiente não cria denúncias, mas molda decisivamente a forma como elas são entendidas, debatidas e instrumentalizadas no espaço público.

Sublinhe-se com clareza: não se afirma nem se sugere a existência de qualquer coordenação, orientação política ou instrumentalização consciente por parte de quem quer que seja. Não se imputam intenções, não se estabelecem relações de causa-efeito, nem se fazem acusações indirectas. Limita-se a constatar um facto objectivo — o momento da divulgação — e a reconhecer que, em política, o tempo tem sempre impacto na leitura pública dos acontecimentos.

A justiça tem os seus próprios ritmos, procedimentos e garantias, que raramente coincidem com o tempo da comunicação social ou da política. Quando estes tempos se confundem, o debate público corre o risco de antecipar julgamentos, cristalizar percepções e produzir danos irreversíveis — mesmo antes de qualquer apuramento definitivo.

A história recente mostra que, nas fases finais das campanhas eleitorais, o debate tende a deslocar-se do confronto de ideias para a gestão de danos, suspeitas e ruído mediático. Essa dinâmica não é exclusiva deste caso, nem deste candidato, nem deste Governo; é um traço recorrente do funcionamento do sistema político-mediático contemporâneo. Questionar essa lógica não é atacar pessoas, mas interrogar o modelo.

É também por isso que muitos cidadãos — e, em particular, muitos monárquicos — encaram este tipo de episódios como sintomas de uma fragilidade estrutural da República. Numa monarquia constitucional, o Chefe de Estado não depende de campanhas eleitorais, não está sujeito a ciclos de exposição mediática agressiva, nem se encontra envolvido em disputas partidárias que favorecem este tipo de climas. A estabilidade institucional e a continuidade do cargo funcionam como barreiras naturais ao espectáculo e à erosão permanente da autoridade simbólica do Estado.

A eleição presidencial, tal como hoje existe, tende a transformar a mais alta magistratura da Nação num palco onde tudo se mistura: estratégia, moralização selectiva, suspeição e dramatização. O problema não está necessariamente nos candidatos, mas num sistema que incentiva este desgaste e o normaliza.

Enquanto monárquico, assumo com transparência que não participo nem colaboro em campanhas presidenciais republicanas, nem apoio qualquer dos candidatos. Não por desinteresse cívico, mas por convicção política. A minha posição é externa a esta disputa e dirige-se ao regime, não às pessoas.

Talvez um dia se compreenda que questionar o contexto, o tempo e os efeitos políticos de certos acontecimentos não é atacar a justiça nem descredibilizar vítimas, mas exercer um direito fundamental de análise crítica. Até lá, continuará a ser necessário escrever com cautela, rigor e sentido institucional — precisamente porque o ruído nunca serve a verdade, seja ela qual for.

Uma democracia madura não teme a análise crítica do seu funcionamento; pelo contrário, exige-a. Questionar os mecanismos que amplificam o ruído, que fragilizam instituições e que confundem justiça com espectáculo não é um exercício de cinismo, mas de responsabilidade cívica.


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Onde Estavam Quando Ainda Era Preciso Estar — A fotografia que não sai do lugar, por José Aníbal Marinho Gomes

Há fotografias que são mais do que memória: são incómodos. Não porque exibam vaidade, mas porque fixam um tempo em que ainda não havia palco, nem holofotes, nem lugares reservados à mesa.

A imagem aqui inserida não surgiu por acaso, nem marca o início de um percurso.  O meu envolvimento com o movimento monárquico começou bem antes, em 1974, quando aderi á Juventude Monárquica Revolucionária, com apenas 14 anos. Nessa altura, ser monárquico era um acto de convicção, não de prestígio.

Este registo, tirado em 1981, mostra-me a intervir num Congresso Nacional da Juventude Monárquica, em Aveiro. Não é uma pose. É um instante de palavra, num tempo em que falar era escolher um lado, não um adereço.



Mas essa imagem não surge do nada. É apenas um fotograma tardio de um percurso bem mais longo, iniciado quando a maioria ainda não distinguia a monarquia de uma nota de rodapé da História. Muito antes de 1981, já em 1974, havia quem assumisse, sem cálculo nem protecção, uma militância clara no seio da Juventude Monárquica Revolucionária, num tempo em que ser monárquico não era excentricidade social, mas exposição política e um certo isolamento. Nesse período existiam várias juventudes monárquicas, ligadas ao Partido Popular Monárquico. Essa pluralidade seria ultrapassada no final da década de 1970, estando em 1981, à data do congresso aqui referido, já consolidada a Juventude Monárquica como única estrutura juvenil organizada.

Falar então de monarquia não era revisitar salões nem evocar nostalgias: era enfrentar o rótulo fácil, a caricatura ideológica, a suspeita automática. Era fazê-lo quando a palavra “Revolução” ainda tinha peso real e quando a divergência não era tolerada como curiosidade, mas vigiada como desvio.

Esse percurso ajuda a compreender porque é que aquela fotografia não é um gesto performativo, mas a consequência natural de uma coerência mantida ao longo de anos. Uma coerência sem épica, sem dramatismo, apenas persistente.

Essa fotografia tem hoje um valor que ultrapassa o registo pessoal. Funciona como pergunta silenciosa. Uma pergunta simples, mas persistente: quem estava lá quando ainda era preciso estar?

Porque há causas que só se tornam concorridas depois de deixarem de ser difíceis. E há ideais que atraem muito mais gente quando já não exigem sacrifício, apenas presença calculada.

Alguns destes novos vigilantes parecem surgir em duplicado, como se a convicção pudesse ser reproduzida em série, dispensando percurso próprio. A ideia repete-se, ecoa, multiplica-se, mas raramente se percebe onde nasceu ou que preço pagou.

Outros apresentam-se como homens da terra, muito práticos, sempre prontos a falar de raízes, mas só depois da colheita, quando o campo já foi trabalhado por outros. Invocam a origem como se fosse propriedade tardia, esquecendo quem semeou quando nada garantia retorno.

Há também os que se escudam na modéstia do nome comum — aquele que lembra que “Deus é favorável” — como se a bênção bastasse para substituir a responsabilidade e a prudência fosse sinónimo de virtude.

O nome sugere apreço, mas não o garante; e talvez por isso a presença oscile entre a crítica declarada e a prudência conveniente.

Entretanto, há quem brilhe. Literalmente. Capas de revista, aparições televisivas, debates moderados com ar isento e discurso ensaiado. A monarquia, para alguns, tornou-se finalmente respeitável — desde que coubesse no enquadramento certo e não exigisse demasiado.

E o movimento? O movimento parece suspenso entre o que foi e o que poderia ser. Observado por zeladores improvisados, fiscalizado por quem chegou tarde, interpretado por quem nunca arriscou quando arriscar fazia diferença.

É aqui que a fotografia de 1981 volta a impor-se. Não como nostalgia, mas como incómodo. Não como passado glorificado, mas como lembrança concreta de que houve um tempo em que não bastava falar bem, aparecer bem ou escolher o momento certo.

Talvez seja isso que incomoda. Não a imagem em si, mas o que ela lembra: que houve quem estivesse antes de ser cómodo, antes de ser seguro, antes de ser útil.

E que a memória, quando é longa, não se deixa administrar com facilidade.


 


A monarquia constitucional: uma instituição moderna, estável e popular, por José Aníbal Marinho Gomes

Fig. publicada em  https://www.instagram.com/p/DXoQXOijCak/ Num momento histórico marcado por profunda desconfiança nas elites políticas, vo...