Antes de mais, importa afirmá-lo sem
ambiguidades: sou absolutamente contra qualquer forma de assédio no local de
trabalho, seja ele de natureza sexual ou de outra ordem. Sempre que tais
comportamentos sejam devidamente apurados e provados, devem ser condenados com
firmeza, independentemente de cargos, percursos políticos ou simpatias
pessoais. Este princípio não admite excepções nem relativizações.
Feita esta afirmação essencial, é igualmente
legítimo — no plano da análise política e mediática — olhar para o contexto em
que determinados factos se tornam públicos, sem que isso implique negar,
desvalorizar ou pôr em causa a seriedade de uma denúncia. A reflexão sobre o
tempo, o enquadramento e os efeitos políticos de um acontecimento não equivale
a acusar pessoas, instituições ou governos de qualquer acto concreto.
É nesse plano que causa natural estranheza que
uma acusação com esta gravidade, tornada pública por Inês Bichão, antiga
assessora da Iniciativa Liberal e actualmente a exercer funções no gabinete de Emídio
Sousa, surja na imprensa a escassos quatro dias do encerramento de uma
campanha eleitoral, tendo como visado João Cotrim de Figueiredo.
Acresce que, de acordo com referências públicas
entretanto conhecidas, a denúncia em causa terá surgido inicialmente nas redes
sociais, tendo sido posteriormente removida pela própria autora. Do mesmo modo,
tem sido noticiado que Inês Bichão exerce actualmente funções no gabinete do
Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa. Estes
elementos, amplamente acessíveis no espaço público, são aqui mencionados não
como factos sujeitos a qualquer interpretação conclusiva, mas apenas como dados
de enquadramento que têm circulado na esfera mediática. A sua referência não
comporta juízos de valor, inferências de intenção ou leituras ocultas,
limitando-se a assinalar o ambiente informativo em que o caso foi sendo
percepcionado.
No actual ecossistema mediático, marcado pela
aceleração permanente da informação, pela concorrência entre plataformas e pela
lógica do impacto imediato, a temporalidade dos acontecimentos torna-se quase
tão relevante quanto o seu conteúdo. A pressão para publicar, comentar e
amplificar sobrepõe-se muitas vezes à serenidade necessária à compreensão dos
factos. Este ambiente não cria denúncias, mas molda decisivamente a forma como
elas são entendidas, debatidas e instrumentalizadas no espaço público.
Sublinhe-se com clareza: não se afirma nem se
sugere a existência de qualquer coordenação, orientação política ou
instrumentalização consciente por parte de quem quer que seja. Não se imputam
intenções, não se estabelecem relações de causa-efeito, nem se fazem acusações
indirectas. Limita-se a constatar um facto objectivo — o momento da divulgação
— e a reconhecer que, em política, o tempo tem sempre impacto na leitura
pública dos acontecimentos.
A
justiça tem os seus próprios ritmos, procedimentos e garantias, que raramente
coincidem com o tempo da comunicação social ou da política. Quando estes tempos
se confundem, o debate público corre o risco de antecipar julgamentos,
cristalizar percepções e produzir danos irreversíveis — mesmo antes de qualquer
apuramento definitivo.
A história recente mostra que, nas fases finais
das campanhas eleitorais, o debate tende a deslocar-se do confronto de ideias
para a gestão de danos, suspeitas e ruído mediático. Essa dinâmica não é
exclusiva deste caso, nem deste candidato, nem deste Governo; é um traço
recorrente do funcionamento do sistema político-mediático contemporâneo.
Questionar essa lógica não é atacar pessoas, mas interrogar o modelo.
É também por isso que muitos cidadãos — e, em
particular, muitos monárquicos — encaram este tipo de episódios como sintomas
de uma fragilidade estrutural da República. Numa monarquia constitucional, o
Chefe de Estado não depende de campanhas eleitorais, não está sujeito a ciclos
de exposição mediática agressiva, nem se encontra envolvido em disputas
partidárias que favorecem este tipo de climas. A estabilidade institucional e a
continuidade do cargo funcionam como barreiras naturais ao espectáculo e à erosão
permanente da autoridade simbólica do Estado.
A eleição presidencial, tal como hoje existe,
tende a transformar a mais alta magistratura da Nação num palco onde tudo se
mistura: estratégia, moralização selectiva, suspeição e dramatização. O
problema não está necessariamente nos candidatos, mas num sistema que incentiva
este desgaste e o normaliza.
Enquanto monárquico, assumo com transparência que
não participo nem colaboro em campanhas presidenciais republicanas, nem apoio
qualquer dos candidatos. Não por desinteresse cívico, mas por convicção
política. A minha posição é externa a esta disputa e dirige-se ao regime, não
às pessoas.
Talvez um dia se compreenda que questionar o
contexto, o tempo e os efeitos políticos de certos acontecimentos não é atacar
a justiça nem descredibilizar vítimas, mas exercer um direito fundamental de
análise crítica. Até lá, continuará a ser necessário escrever com cautela,
rigor e sentido institucional — precisamente porque o ruído nunca serve a
verdade, seja ela qual for.
Uma
democracia madura não teme a análise crítica do seu funcionamento; pelo
contrário, exige-a. Questionar os mecanismos que amplificam o ruído, que
fragilizam instituições e que confundem justiça com espectáculo não é um
exercício de cinismo, mas de responsabilidade cívica.


