O
mega-projecto fotovoltaico Sophia, previsto para os concelhos do Fundão,
Penamacor e Idanha-a-Nova, é apresentado pelos seus promotores como um símbolo
de progresso e de transição energética. O nome escolhido — Sophia, palavra
grega que significa sabedoria — parece prometer equilíbrio, ponderação e visão
de futuro. No entanto, à medida que o projecto foi sendo conhecido em maior
detalhe, essa promessa simbólica entrou em choque com a realidade concreta do
território onde se pretende implantar.
Segundo
informação divulgada pelo Público, pelo Jornal de Negócios, pela Euronews e por
outros órgãos de comunicação social, o projecto prevê uma potência instalada
superior a 800 MWp e um investimento na ordem dos 590 milhões de euros. Porém,
os mesmos meios noticiaram também a dimensão dos impactos ambientais associados
à sua implantação. De acordo com o Estudo de Impacte Ambiental colocado em
consulta pública, a construção da central implicará a afectação directa de
cerca de 1120 azinheiras e 421 sobreiros, árvores protegidas por lei e
elementos estruturantes do ecossistema do montado. Ainda segundo esse estudo,
mais de 1100 hectares de habitats naturais serão profundamente transformados,
com decapagem de solos, fragmentação ecológica e perda de biodiversidade numa
região já marcada por fragilidades ambientais e demográficas.
Estes
dados estiveram na origem de uma participação pública sem precedentes. O Jornal
de Negócios referiu que a consulta pública do projecto Sophia bateu recordes de
contributos, com milhares de participações críticas. A Comunidade
Intermunicipal da Beira Baixa emitiu parecer desfavorável, vários municípios
manifestaram reservas sérias, e associações ambientais como a ZERO, a SPEA e
outras denunciaram lacunas no estudo ambiental e a desproporção entre os
benefícios anunciados e os danos irreversíveis no território.
Não
se trata, como tantas vezes se tenta caricaturar, de uma oposição à energia
solar. Trata-se de uma crítica à escala, à localização e ao modelo de ocupação
do território. A Beira Baixa arrisca transformar-se num espaço de extracção
energética intensiva, onde decisões tomadas à distância se impõem sobre
comunidades locais, paisagens históricas e sistemas ecológicos construídos ao
longo de séculos.
Para
além da destruição directa do coberto vegetal e da artificialização extensiva
do solo, o projecto constitui uma ameaça séria à fauna selvagem que subsiste
neste território. A ocupação contínua do espaço por painéis solares, vedações e
vias técnicas compromete corredores ecológicos essenciais e agrava o risco de
mortalidade da avifauna.
Espécies
protegidas e particularmente sensíveis, como a águia-imperial-ibérica, a
cegonha-preta, o abutre-preto, o sisão e o cortiçol-de-barriga-branca, dependem
de vastas áreas tranquilas para alimentação, reprodução e deslocação. A
perturbação permanente e a perda de habitat colocam em risco a sobrevivência
local destas espécies, com consequências irreversíveis para o património
natural nacional.
Foi
neste contexto de forte contestação pública e de crescente atenção mediática
que surgiu um outro dado, amplamente noticiado por órgãos de comunicação social
independentes, entre os quais o Regiões e o Lobo Media. Segundo essas
informações públicas, João Pedro Pinto Salazar Marques Mendes, filho de Luís
Marques Mendes, surge como accionista da empresa Lightsource Renewable Energy
Portugal (HoldCo), Lda., sociedade que detém a Coloursflow – Unipessoal, Lda.,
entidade directamente ligada à promoção do projecto fotovoltaico Sophia. A
gestão executiva da empresa está atribuída a outros responsáveis, facto
igualmente referido nas mesmas fontes.
É
também neste enquadramento que ganha relevo uma coincidência de natureza
simbólica: Sofia é o nome da mulher de Luís Marques Mendes, hoje candidato à
Presidência da República. A coincidência, por si só, não tem qualquer
significado político directo nem constitui qualquer prova de envolvimento
pessoal. Ainda assim, num projecto que se tornou um dos mais polémicos
investimentos energéticos alguma vez propostos em Portugal, essa sobreposição
nominal tornou-se inevitavelmente objecto de comentário público.
É
fundamental sublinhar — e fazê-lo com clareza — que não existe qualquer
acusação pública de ilegalidade, favorecimento ou interferência política neste
processo. A menção destas ligações é estritamente factual e assenta em dados
societários e jornalísticos tornados públicos. Ainda assim, em democracia, a
transparência não é um ataque: é uma exigência. Quando um projecto de enorme
impacto ambiental e territorial envolve interesses empresariais ligados, ainda
que indirectamente, à esfera familiar de um candidato presidencial, é legítimo
que se coloque a questão do escrutínio público e que se espere uma clarificação
serena por parte do próprio.
Talvez
por isso a ausência de uma posição pública clara de Luís Marques Mendes sobre o
projecto Sophia tenha sido notada. Não para imputar responsabilidades que não
estão demonstradas, mas para compreender que visão tem um candidato à
Presidência da República sobre o ordenamento do território, a protecção
ambiental e os limites éticos entre o poder político e os grandes investimentos
privados.
É
neste ponto que a figura de Gonçalo Ribeiro Telles se torna incontornável.
Arquitecto paisagista, pensador do território e defensor incansável do mundo
rural, Ribeiro Telles sempre alertou para os perigos de um desenvolvimento
cego, guiado apenas por indicadores económicos ou tecnológicos. Para ele, o
território não era um vazio disponível para ocupação intensiva, mas um
organismo vivo, onde natureza, agricultura, paisagem e comunidades humanas
formam um todo inseparável.
Se estivesse vivo, dificilmente Ribeiro Telles aceitaria um projecto que implicasse o abate de centenas de sobreiros e azinheiras em nome de uma ideia abstracta de sustentabilidade. Provavelmente lembraria que a verdadeira transição ecológica não se faz substituindo ecossistemas vivos por infra-estruturas industriais, ainda que “verdes”. Defenderia soluções descentralizadas, a integração da produção energética em áreas já artificializadas e um planeamento que respeitasse a identidade da paisagem e das populações locais.
O
caso do Sophia expõe, assim, uma contradição profunda do nosso tempo: invocamos
a urgência climática para justificar projectos que, na prática, fragilizam o
território e ignoram princípios elementares de prudência ecológica.
Chamaram-lhe sabedoria, mas talvez tenha faltado precisamente isso — a
sabedoria de ouvir, de respeitar e de reconhecer que nem todo o sol justifica a
sombra que se lança sobre a terra.


