Há datas que se celebram com
pompa, circunstância e um zelo quase litúrgico. Outras celebram-se com silêncio
— que é uma forma refinada de omissão. Amanhã, dia 4 de Março, encerram-se
oficialmente as comemorações dos 900 anos do foral concedido por D. Teresa.
Nove séculos embrulhados em discursos, encenações históricas e fotografias
estrategicamente sorridentes. A história, quando bem iluminada, torna-se sempre
muito apresentável.
É notável a capacidade de
comprimir novecentos anos num programa cultural. Mais notável ainda é a
capacidade de seleccionar o que cabe dentro dele. Porque a memória, ao contrário
do que nos ensinaram, não é apenas uma virtude colectiva; é também um exercício
de escolha. E escolher implica deixar de fora.
Dizem que os povos sem memória
estão condenados a repeti-la. Talvez por isso se pratique, com tanto afinco, a
memória selectiva — essa arte antiga de recordar apenas o que não perturba. No
meio de tantas evocações solenes, há um silêncio que ressoa de forma
particularmente clara: o nome do Dr. Francisco Abreu e Lima.
É curioso. Celebram-se nove
séculos de identidade, mas parece faltar espaço para mencionar quem, em tempos
bem menos festivos, trabalhou para que essa identidade fosse estudada, escrita,
pensada. O Dr. Francisco Abreu e Lima não pertence ao século XII, é verdade —
mas pertence à história concreta desta terra. Dedicou-se a compreendê-la, a
interpretá-la e a partilhá-la. Fez aquilo que dá trabalho e raramente dá palco.
Talvez seja distração. Acontece.
Entre recriações medievais e discursos afinados, um nome pode perder-se. Eça de
Queirós, com aquele seu bisturi literário, talvez comentasse que somos um país
exímio na arte de celebrar aparências enquanto arquivamos substâncias. Gostamos
do gesto largo, da cerimónia impecável, do aplauso final. O reconhecimento
consistente, esse exige memória longa — e a memória longa não combina bem com
agendas curtas.
Guerra Junqueiro, mais
impaciente, talvez fosse menos indulgente. Talvez lembrasse que há sempre uma
diferença subtil entre homenagear o passado e instrumentalizá-lo. É sempre mais
simples celebrar o passado distante, cuja grandeza ninguém discute e cuja
distância no tempo o coloca a salvo de debates contemporâneos. As figuras
remotas oferecem o conforto raro da unanimidade — não geram incómodos, não
exigem explicações, não pedem contraditório.
Mais desconfortável é reconhecer
quem, num passado recente, construiu pensamento, levantou questões e deixou
obra que não cabe facilmente num folheto comemorativo.
As comemorações dos 900 anos são
legítimas e merecidas. Mas a grandeza histórica não se mede apenas pela idade
das datas; mede-se também pela honestidade da memória. E quando uma comunidade
celebra a sua fundação, seria expectável que honrasse também quem dedicou parte da sua vida a estudá-la e valorizá-la.
Não se trata de um favor pessoal,
nem de um gesto protocolar. Trata-se de coerência. Se a identidade é motivo de
festa, então quem a ajudou a compreender deveria, no mínimo, merecer uma linha
— uma palavra — um reconhecimento público. O silêncio, neste contexto, deixa de
ser neutro. Torna-se eloquente.
Talvez se diga que nove séculos
são assunto suficiente e que não se pode falar de tudo. É verdade: não se pode
falar de tudo. Mas há nomes que não são “tudo” — são parte essencial do que
hoje se proclama com orgulho. Ignorá-los não empobrece a figura ignorada;
empobrece a própria celebração.
As luzes apagar-se-ão amanhã. As
estruturas serão desmontadas. As bandeiras recolhidas. O foral regressará às
páginas dos livros até à próxima efeméride redonda. Mas a memória não se
encerra com o programa oficial. E há nomes que, mesmo ausentes dos discursos,
continuam a circular — incómodos para uns, indispensáveis para outros.
Porque a história não é apenas
aquilo que se celebra; é também aquilo que se reconhece. E uma terra que cumpre
novecentos anos deveria já ter idade suficiente para saber que o esquecimento,
quando é demasiado conveniente, deixa de ser lapso — passa a ser escolha.

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