domingo, 21 de junho de 2026

A Memória dos Laços, por José Aníbal Marinho Gomes



              Não há verdadeira amizade senão entre aqueles que Tu unes pela caridade."

— Santo Agostinho

Entre os muitos dons que Deus concede ao homem, a amizade ocupa um lugar especial. Não é apenas uma afinidade de gostos ou de circunstâncias. Quando vivida com sinceridade, torna-se uma expressão da caridade cristã e um caminho de crescimento humano e espiritual.

Ao longo da vida, cruzamo-nos com inúmeras pessoas. Algumas passam brevemente pelo nosso caminho; outras permanecem e ajudam a moldar aquilo que somos. São aquelas que partilham connosco momentos de alegria e de provação, de esperança e de desânimo, de êxito e de dificuldade. Essas presenças tornam-se parte da nossa história.

Com o passar dos anos, compreendemos que a amizade não se mede pela frequência dos encontros nem pelo número de palavras trocadas. Mede-se antes pela qualidade dos sentimentos, pela sinceridade das intenções e pelo respeito que continuamos a nutrir uns pelos outros.

A amizade verdadeira não procura ocupar lugares de destaque. Manifesta-se muitas vezes de forma discreta, através da atenção, da disponibilidade, da memória e da consideração. São os pequenos gestos que revelam a grandeza dos sentimentos.

A gratidão ocupa igualmente um lugar importante na vida cristã. Não apenas para com Deus, fonte de todos os bens, mas também para com aqueles que Ele coloca no nosso caminho. Ser grato é reconhecer o bem recebido, valorizar as pessoas que fizeram parte da nossa caminhada e conservar viva a memória dos laços que ajudaram a construir a nossa história.

Num tempo em que tantas relações se tornam frágeis e passageiras, talvez seja importante recordar que as amizades mais sólidas são aquelas que assentam em valores duradouros: a confiança, a lealdade, o respeito mútuo e a capacidade de olhar para o outro não pelo que nos pode oferecer, mas pelo valor que possui enquanto pessoa.

A tradição cristã sempre viu na amizade uma expressão elevada da caridade. Um amigo verdadeiro alegra-se com o bem do outro, respeita-o na sua dignidade e procura conservar, através do tempo e das circunstâncias, a estima que um dia deu origem à amizade.

Talvez por isso seja útil, de vez em quando, refletirmos sobre a forma como cuidamos das pessoas que Deus colocou na nossa vida. Não para julgar ninguém, mas para nos interrogarmos a nós próprios sobre a qualidade da nossa gratidão, da nossa consideração e da nossa capacidade de permanecer fiéis aos valores que professamos.

Porque as amizades verdadeiras, tal como as virtudes cristãs, não vivem apenas das palavras. Vivem sobretudo das atitudes.

Que saibamos, com humildade e gratidão, cuidar dos laços que Deus nos concede ao longo da vida.

"Nada é mais precioso neste mundo do que a verdadeira amizade." — São Tomás de Aquino 

sábado, 13 de junho de 2026

Porque Deixou a Procissão de Passar pelo Martim Moniz? por José Aníbal Marinho Gomes



A decisão de alterar o percurso da Procissão do Corpo de Deus em Lisboa, deixando de passar pelo Martim Moniz, levantou uma questão que merece reflexão e esclarecimento público.

Antes de mais, importa afirmar algo essencial: não existem, até ao momento, provas de que esta alteração tenha sido motivada pela presença de comunidades muçulmanas ou por qualquer outra comunidade religiosa naquela zona da cidade. Numa sociedade democrática, as opiniões devem assentar em factos e não em suspeitas. Contudo, a falta de explicações claras por parte das entidades responsáveis acaba inevitavelmente por alimentar dúvidas que poderiam ser evitadas através da transparência.

A Procissão do Corpo de Deus não é apenas uma cerimónia religiosa. É uma tradição secular que faz parte da história de Lisboa e de Portugal. Durante séculos, manifestações desta natureza ajudaram a moldar a identidade cultural do país e continuam a integrar o património histórico e imaterial da nação.

Portugal é um Estado laico. A Constituição garante a liberdade religiosa e estabelece a separação entre o Estado e as confissões religiosas. Mas a laicidade não significa apagamento da história nem negação das raízes culturais de um povo. Um Estado laico não é um Estado sem memória.

Os dados oficiais dos Censos de 2021 mostram que cerca de 80% dos portugueses continuam a identificar-se como católicos. Independentemente do grau de prática religiosa de cada pessoa, este número demonstra que a tradição católica continua a ser um dos elementos centrais da identidade histórica, cultural e social portuguesa.

Portugal não tem religião oficial, mas também não deve ter amnésia histórica. É um facto incontornável que a cultura, a arte, o património, os feriados, as tradições e grande parte da identidade nacional foram profundamente influenciados pelo cristianismo e pela tradição católica. Reconhecer esta realidade não implica excluir ninguém; significa apenas reconhecer a história tal como ela é.

Reconhecer esta herança não diminui a liberdade de quem professa outras religiões nem o direito de quem não segue qualquer fé. Pelo contrário, uma sociedade verdadeiramente plural é aquela que consegue respeitar todas as convicções sem exigir que nenhuma delas renuncie à sua identidade.

É precisamente por isso que a alteração do percurso suscita interrogações legítimas. O Martim Moniz tornou-se, nos últimos anos, um dos maiores símbolos das transformações sociais, culturais e demográficas de Lisboa. É um espaço marcado pela diversidade, pela presença de diferentes comunidades e pela convivência de várias culturas.

Mas se Lisboa se orgulha de ser uma cidade multicultural, então não deveria existir qualquer incompatibilidade entre essa diversidade e a passagem de uma procissão católica pelas suas ruas. Pelo contrário. Uma sociedade plural demonstra a sua maturidade quando permite que diferentes expressões culturais, religiosas e identitárias coexistam naturalmente no mesmo espaço público.

A integração não se faz através da invisibilidade. Faz-se através do respeito mútuo. Os católicos devem respeitar os muçulmanos, os hindus, os evangélicos, os judeus, os ateus e todos os restantes cidadãos. Da mesma forma, todas as comunidades devem respeitar as tradições históricas do país onde vivem. O respeito não exige renúncia à identidade; exige apenas reconhecimento recíproco.

Por isso, a questão principal não é saber se alguém poderia sentir-se ofendido pela procissão. A verdadeira questão é saber quais foram os critérios que justificaram a alteração do percurso e porque motivo uma tradição com séculos de história deixou de passar precisamente por uma das zonas mais emblemáticas da Lisboa contemporânea.

Se existiram razões logísticas, de segurança, de mobilidade ou de organização, os cidadãos têm o direito de as conhecer. A transparência fortalece a confiança. O silêncio alimenta especulações. E quando estão em causa tradições com profundo significado histórico e cultural, as explicações tornam-se ainda mais importantes.

Uma Lisboa aberta ao mundo não precisa de esconder as suas raízes para acolher a diversidade. Uma cidade segura da sua identidade é capaz de preservar as suas tradições históricas enquanto respeita todas as comunidades que nela vivem.

Numa democracia madura, diversidade e identidade não são valores incompatíveis. Pelo contrário. Uma sociedade forte é aquela que consegue afirmar ambas sem medo, sem complexos e sem necessidade de apagar partes da sua própria história.

A diversidade enriquece uma sociedade. Mas uma sociedade que esquece as suas raízes corre o risco de perder aquilo que a tornou digna de ser partilhada.

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