Há fotografias que são mais
do que memória: são incómodos. Não porque exibam vaidade, mas porque fixam um tempo
em que ainda não havia palco, nem holofotes, nem lugares reservados à mesa.
A imagem aqui inserida não
surgiu por acaso, nem marca o início de um percurso. O meu envolvimento com o movimento monárquico
começou bem antes, em 1974, quando aderi á Juventude Monárquica Revolucionária,
com apenas 14 anos. Nessa altura, ser monárquico era um acto de convicção, não
de prestígio.
Este registo, tirado em
1981, mostra-me a intervir num Congresso Nacional da Juventude Monárquica, em
Aveiro. Não é uma pose. É um instante de palavra, num tempo em que falar era
escolher um lado, não um adereço.
Mas essa imagem não surge do
nada. É apenas um fotograma tardio de um percurso bem mais longo, iniciado
quando a maioria ainda não distinguia a monarquia de uma nota de rodapé da
História. Muito antes de 1981, já em 1974, havia quem assumisse, sem cálculo
nem protecção, uma militância clara no seio da Juventude Monárquica
Revolucionária, num tempo em que ser monárquico não era excentricidade social,
mas exposição política e um certo isolamento. Nesse período existiam várias
juventudes monárquicas, ligadas ao Partido Popular Monárquico. Essa pluralidade
seria ultrapassada no final da década de 1970, estando em 1981, à data do
congresso aqui referido, já consolidada a Juventude Monárquica como única
estrutura juvenil organizada.
Falar então de monarquia não
era revisitar salões nem evocar nostalgias: era enfrentar o rótulo fácil, a
caricatura ideológica, a suspeita automática. Era fazê-lo quando a palavra
“Revolução” ainda tinha peso real e quando a divergência não era tolerada como
curiosidade, mas vigiada como desvio.
Esse percurso ajuda a
compreender porque é que aquela fotografia não é um gesto performativo, mas a
consequência natural de uma coerência mantida ao longo de anos. Uma coerência
sem épica, sem dramatismo, apenas persistente.
Essa fotografia tem hoje um
valor que ultrapassa o registo pessoal. Funciona como pergunta silenciosa. Uma
pergunta simples, mas persistente: quem estava lá quando ainda era preciso
estar?
Porque há causas que só se
tornam concorridas depois de deixarem de ser difíceis. E há ideais que atraem
muito mais gente quando já não exigem sacrifício, apenas presença calculada.
Alguns destes novos
vigilantes parecem surgir em duplicado, como se a convicção pudesse ser
reproduzida em série, dispensando percurso próprio. A ideia repete-se, ecoa,
multiplica-se, mas raramente se percebe onde nasceu ou que preço pagou.
Outros apresentam-se como
homens da terra, muito práticos, sempre prontos a falar de raízes, mas só
depois da colheita, quando o campo já foi trabalhado por outros. Invocam a
origem como se fosse propriedade tardia, esquecendo quem semeou quando nada garantia
retorno.
Há também os que se escudam
na modéstia do nome comum — aquele que lembra que “Deus é favorável” — como se
a bênção bastasse para substituir a responsabilidade e a prudência fosse
sinónimo de virtude.
O nome sugere apreço, mas
não o garante; e talvez por isso a presença oscile entre a crítica declarada e
a prudência conveniente.
Entretanto, há quem brilhe.
Literalmente. Capas de revista, aparições televisivas, debates moderados com ar
isento e discurso ensaiado. A monarquia, para alguns, tornou-se finalmente
respeitável — desde que coubesse no enquadramento certo e não exigisse demasiado.
E o movimento? O movimento
parece suspenso entre o que foi e o que poderia ser. Observado por zeladores
improvisados, fiscalizado por quem chegou tarde, interpretado por quem nunca
arriscou quando arriscar fazia diferença.
É aqui que a fotografia de
1981 volta a impor-se. Não como nostalgia, mas como incómodo. Não como passado
glorificado, mas como lembrança concreta de que houve um tempo em que não
bastava falar bem, aparecer bem ou escolher o momento certo.
Talvez seja isso que
incomoda. Não a imagem em si, mas o que ela lembra: que houve quem estivesse
antes de ser cómodo, antes de ser seguro, antes de ser útil.
E que a memória, quando é
longa, não se deixa administrar com facilidade.


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