Na mais recente entrevista à SIC Notícias, Manuel
João Vieira, músico, artista performativo e fundador dos irreverentes Ena Pá
2000 (responsáveis por algumas das mais provocadoras sátiras culturais do
país), mostrou que a política portuguesa consegue sempre ultrapassar os limites
da imaginação.
Munido de mais de 7.500 assinaturas e de um
programa que faria corar qualquer guionista de comédia absurda, o pré-candidato
promete vinho canalizado em todas as casas, um Ferrari para cada português,
patinadoras russas para uns e dançarinos cubanos para outras. Tudo em nome do
afecto — porque, segundo ele, aquilo que verdadeiramente oferece é amor. E para
coroar a epopeia, declara: “Só desisto se for eleito.” Eis o mais recente
milagre da República Portuguesa: transformar uma candidatura presidencial no
maior espectáculo político do ano.
Este caso tão hilariante quanto preocupante
revela uma verdade desconcertante. Nas repúblicas onde o Chefe de Estado é
eleito por sufrágio directo, a chefia do Estado pode ser disputada por qualquer
cidadão que reúna as assinaturas necessárias e uma boa dose de disposição para
o protagonismo. A democracia abre as portas — e o circo instala-se.
Manuel João Vieira, com o seu humor de
contracultura, mostra que o modelo republicano pode facilmente perder a
gravidade que um Chefe de Estado deveria encarnar. Não está em causa a
democracia — que também se encontra plenamente nas monarquias constitucionais —
mas sim um sistema que transforma a mais alta magistratura da Nação num palco
de espectáculo e frivolidade.
Se o processo eleitoral acolhe com entusiasmo
promessas surreais e programas que roçam o disparate, então o problema não é o
candidato, mas sim o mecanismo que o legitima. O absurdo, quando se torna
viável, deixa de ser brincadeira e transforma-se em sintoma.
É precisamente neste contraste que a monarquia
aparece como uma alternativa que, longe de ser arcaica, se revela de
surpreendente sobriedade. Num sistema monárquico constitucional, o Chefe de
Estado não precisa de recorrer a promessas extravagantes para conquistar
popularidade, nem depende da espuma das redes sociais ou da viralidade
momentânea. A sua função assenta na continuidade histórica, na neutralidade
perante os partidos e na representação da unidade nacional. Enquanto um
Presidente da República é empurrado para campanhas onde o espectáculo se
sobrepõe à substância, um monarca cumpre a sua missão sem ter de transformar a
dignidade do Estado num número de entretenimento.
A monarquia não precisaria de Ferraris para
ganhar afeição pública, nem de canalizar vinho para mostrar proximidade ao
povo. Existe para ser referência institucional, e não fenómeno de feira
política. É um cargo que não depende da ilusão: depende da estabilidade. Uma
estabilidade que a república se mostra incapaz de garantir quando qualquer
eleição pode converter o Palácio de Belém num palco de humor que arrisca
tornar-se perigoso. Enquanto na república se escolhe sempre alguém com algo a
provar — seja por ambição, por ego ou, como neste caso, por sátira —, na
monarquia o Chefe de Estado simplesmente representa o país de forma contínua,
sem necessidade de cativar eleitores com absurdos.
Não que restaurar a monarquia seja processo
simples. Há resistências ideológicas, entraves constitucionais e um hábito
republicano já estabelecido. Mas há também um problema cada vez mais evidente:
o regime actual já não consegue proteger a seriedade institucional que o cargo
exige. A entrevista de Vieira funciona como um espelho cruel: se o país hoje
pode ter um candidato presidencial cuja principal arma política é o humor,
amanhã poderá ter um Presidente eleito da mesma escola — e aí já não haverá vinho
nem Ferrari que disfarce o embaraço.
Com ou sem intenção, Manuel João Vieira prestou
um grande serviço à discussão pública: ao ridicularizar o modelo
presidencialista português, demonstrou o quão exposta está a república à
banalização da autoridade do Estado. Lembrou-nos que, no actual sistema, a
fronteira entre a política e o espectáculo é tão ténue que um passo em falso
pode transformar o Chefe de Estado numa figura de riso nacional. E,
convenhamos, quando a política se torna palhaçada, o país é que paga o bilhete
da entrada.
Talvez esteja na hora de Portugal reflectir sobre
que tipo de liderança quer no topo do Estado. Talvez devamos escolher entre o
reinado da dignidade e o reinado do meme. E talvez a piada tenha chegado ao
fim. Porque rir do Presidente é perigoso quando ele já nem precisa de estar lá
para nos fazer rir.

Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.